O Facebook usa o microfone do celular – Mito ou Realidade

Ultimamente, várias pessoas e agências de notícias têm afirmado que o Facebook consegue “ouvir” as chamadas telefónicas e conversas pessoais. Mas porque razão estas especulações continuam a persistir? Será verdade que o microfone do celular está a ser utilizado para mais do que é esperado, ou será este outro dos muitos mitos criados online?

Facebook usa o microfone do celular

Facebook usa o microfone do celular?

Vivemos num tempo em que as pessoas acreditam em tudo o que lêem na internet, sem antes fazerem uma pesquisa ou sequer colocar em causa a veracidade da informação. Claro que isso leva a paranoia e o resultado inevitável são as teorias da conspiração.

Um ponto comum a todos as pessoas que acreditam no “Mito do Microfone”, é o de afirmarem que começaram a ver publicidade inesperada sobre um certo tema, minutos após falaram desse mesmo tema com alguém. Por exemplo, imagine que está a falar com um amigo sobre sofás e ao entrar no Facebook algum tempo depois, surgem anúncios de…imagine só: sofás! De certeza que já ouviu esta história, ou quem sabe, já lhe aconteceu o mesmo. Claramente o Facebook está a escutar o seu microfone do celular!



Mas não. A verdade é que isso não é verdade. O seu plano de dados rapidamente ficaria esgotado e o tempo da sua bateria seria muito menor, se o Facebook estivesse a gravar todas as suas conversas.

O problema está em convencer as pessoas que estão erradas. Pense um pouco comigo, não acha que o Facebook já tem informação mais que necessária para conhecer os seus utilizadores ao pormenor? O Facebook tem tanta informação sobre cada pessoa, que não precisa de ouvir as conversas para saber o que você quer. Eles já sabiam que você queria um sofá, e mais tarde ou mais cedo, teriam mostrado esse anúncio quer tenha falado disso com alguém ou não.

O Facebook transforma a sua atividade no site num mapa da sua mente e, em seguida, utiliza esse mesmo mapa para lhe vender produtos. Não é necessário que eles controlem o microfone do celular para fazerem isso.

Teorias da conspiração são confortáveis

E porque razão o mito persiste? Porque é uma história simples. Uma pessoa diz algo em voz alta, o Facebook “ouve” e em seguida mostra publicidade de acordo. É fácil.

As teorias da conspiração, de uma forma geral, tornam o mundo um pouco menos caótico e menos assustador. A ideia de alguns terroristas terem capturado aviões para embater contra o World Trade Center devido às suas convicções é aterrorizante. Parece que ninguém tem controlo sobre a segurança e que tudo pode acontecer a qualquer momento. De uma forma um pouco bizarra, é muito mais reconfortante imaginar que esses acidentes foram uma conspiração do governo dos Estados Unidos não é verdade?



Recentemente, a BBC publicou um artigo que explora o nosso fascínio pelas teorias da conspiração. De acordo com o artigo, “alguns estudos revelam que as teorias da conspiração ajudam as pessoas a entender o mundo quando perdem o controlo, quando estão ansiosas ou se sentem impotentes perante uma ameaça.”

A ideia de que o Facebook está a utilizar o microfone do celular para escutar as suas conversas e a mostrar publicidade relevante para o tema, é um medo fácil de entender e fácil de articular. A realidade é bem mais complexa e consideravelmente menos transparente para a maioria das pessoas – o Facebook está sempre a observar o seu comportamento enquanto percorre o site, vendo que demora alguns segundos a ver algumas fotos, mas por outro lado, minutos vendo outras. Toda essa informação acerca do seu comportamento é compilada por vários algoritmos, criando assim uma imagem dos seus pensamentos e necessidades.

A ideia de que o seu comportamento online pode ser transformado em dados, e que esses dados servem para construir uma lista de necessidades que prevê a sua necessidade da compra de um sofá é não só espantosa, mas também difícil de entender.

Facebook: rede social ou agregador de dados?

As duas coisas. O Facebook já não é apenas uma rede social utilizada para encontrar antigos colegas de escola ou familiares de longe. É um complexo sistema que gera receitas com as suas informações particulares.

Todo o modelo de negócios do Facebook baseia-se em: recolher informações dos seus utilizadores; criar melhores anúncios com as informações recolhidas; e compilar tudo para que os seus parceiros anunciantes possam chegar mais rápido ao seu público alvo. A sua timeline, as conversas no Messenger, as fotos que não sabe porque teimam em aparecer – tudo isso é utilizado para o mesmo fim.

No entanto, isto não é uma novidade. Os defensores da privacidade vêm apontando estas situações há mais de uma década. Simplesmente, as pessoas ignoraram os seus conselhos, ou decidiram que a utilidade que obtiveram do Facebook valeu a troca pela sua privacidade invadida (ainda que muitos não tenham bem a noção do quão “invadida” ela foi). Mesmo após o recente escândalo da Cambridge Analytica, esse padrão provavelmente continuará.

Outra coisa que também convém apontar, é que este tipo de comportamento não é de forma alguma limitado apenas ao Facebook. Muitas empresas fazem o mesmo e é muito provável que, por exemplo, o Google saiba ainda mais sobre os seus utilizadores que o Facebook.

Temos também o caso de empresas que não exibem publicidade, no entanto utilizam as mesma táticas. Veja o exemplo da Netflix, em que a empresa recolhe constantemente dados sobre aquilo que os utilizadores assistem e utiliza esses dados para garantir que estes permanecem no site o maior tempo possível. Todas as empresas online estão sempre a observar os comportamentos dos utilizadores e provavelmente, não haverá muito que possa fazer sobre isso.

Privacidade no Facebook

Por último, este tipo de comportamento não se limita a empresas de tecnologia e na verdade, nem é uma novidade. Embora a tecnologia tenha tornado tudo mais fácil, rápido,  e preciso, na forma de recolher informações sobre as pessoas, a mesma técnica tem sido utilizada pela televisão, pelos profissionais de marketing, pelas lojas, etc. Lembre-se disto: de cada vez que passa o cartão de descontos no momento de fazer as compras do mês, a empresa está a recolher informações sobre o que está a comprar, quando comprou, que produtos compra em conjunto. Caso utilize um cartão de débito, cartão de crédito ou sistema de pagamento online, isso pode dizer mais ainda sobre o seu comportamento.

E claro, nada disso significa que o Facebook (ou qualquer outra empresa) não seja útil. Pode remover o acesso de apps ao seu Facebook, mas não precisa de o remover da sua vida para que a sua privacidade deixe de ser invadida.

Veja apenas o Facebook e outros serviços semelhantes, tal como eles são: máquinas criadas especificamente para recolher informações sobre os seus utilizadores, para que depois possam vender essas informações aos seus anunciantes.

Talvez nada disso seja uma novidade, ou talvez sim. O importante é que se todos nós, enquanto sociedade, vamos utilizar esses serviços e tomar decisões sobre como responder às suas práticas, devemos manter os olhos abertos e procurar pesquisar/aprender um pouco mais sobre o que está realmente a acontecer.

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